O sobrevivente

O sobrevivente

As baratas
que tanto maldizemos
passeiam triunfais por entre fósseis jurássicos.
No mesmo instante,
O filósofo pondera,                                                     acende seu cachimbo
e passeia suas patas articuladas
por sobre os detritos dos pregadores da morte:
"Darwin dá alento
a quem sabe andar de rojo nos esgotos:
só sairá vencedora a espécie que respingar
nas narinas Rinosoro,
com os incontornáveis brancos pós, tiver parcimônia,
e se fizer de manhã, de Sundown, máscara clara.
À pré-história do futuro os demais pertencerão."
Nos descaminhos dos ralos,
os insetos marrons invadem as casas faxinadas,
fingem-se de mortos quando massacrados,
atiçam as neuroses das mulheres emancipadas.
Hoje, sempre e desde a pré-história da pré-história,
o asqueroso artrópode,
no insípido submundo,
esteio da nossa nobre crosta,
perpetua indômito sua espécie,
à revelia do humano esforço de saneamento
e das pegadas dos dinossauros.
De minha parte,
Eu, que voto nulo
e que engulo amargo os carmas da minha época
sem cogitar o suicídio,
me pego a vislumbrar da janela do meu apartamento,
com os devidos pratos em seus lugares,
fazendo sombra aos carros recém-encerados
e voando rasante por entre os bairros de classe média,
o portentoso e indomável fantasma dum     Pterodáctilo roxo
a dizer sim a essa escrita
com que dou ritmo à respiração difícil
da minha envergonhada inadaptabilidade.

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